9 de julho de 2026

Cannabis medicinal vive fase de amadurecimento científico e regulatório no Brasil

Cannabis medicinal vive fase de amadurecimento científico e regulatório no Brasil

A 5ª edição do Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal, realizado em maio e promovido pelo Sechat, é um dos principais fóruns nacionais para discussão científica, regulatória e de mercado relacionados à Cannabis medicinal. O evento reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, representantes da indústria, reguladores e empreendedores em uma programação distribuída por áreas temáticas como Medicina, Medicina Veterinária, Química e Farmácia, Agronomia e Negócios.

Com dezenas de palestras simultâneas, o congresso apresentou um panorama abrangente sobre os avanços mais recentes envolvendo pesquisa clínica, inovação tecnológica, regulação sanitária e acesso a tratamentos à base de Cannabis. A participação de especialistas com atuação em assistência, pesquisa e gestão permitiu uma análise atualizada dos principais desafios e perspectivas para o setor.

Um dos aspectos mais evidentes foi o crescimento da produção científica sobre Cannabis sativa. Instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Faculdade de Medicina do ABC e Faculdade Sírio-Libanês apresentaram resultados de pesquisas em diferentes áreas terapêuticas. Parte desses estudos é desenvolvida em parceria com a indústria farmacêutica nacional, que, de acordo com o novo marco regulatório estabelecido pela RDC nº 1.015/2026, possui prazo até fevereiro de 2031 para concluir ensaios clínicos e buscar a conversão dos atuais produtos de Cannabis em medicamentos registrados junto à Anvisa.

Além da programação científica, o evento contou com uma feira de negócios que reuniu empresas de importação direta de produtos à base de Cannabis, consultorias em regularização sanitária, farmácias de manipulação, associações de pacientes, representantes de conselhos profissionais e empresas ligadas ao cultivo e à cadeia produtiva do setor.

O que dizem as evidências científicas

As discussões realizadas no módulo MedCan, voltado à área médica, indicaram um cenário de evolução gradual do conhecimento científico, mas sem rupturas significativas em relação ao que já era observado nos últimos anos. De forma geral, a literatura científica atual permite dividir as aplicações terapêuticas da Cannabis em três grupos: evidências robustas, evidências promissoras e evidências ainda inconclusivas.

Entre as indicações com evidências mais consistentes estão o controle de sintomas da esclerose múltipla, o tratamento de epilepsias refratárias, o manejo de náuseas e vômitos induzidos por tratamentos oncológicos e, mais recentemente, a dor lombar crônica com componente neuropático. Também permanecem bem documentadas aplicações relacionadas à espasticidade pós-AVC, algumas neuropatias e determinados sintomas comportamentais associados a condições neurodegenerativas.

No grupo das evidências consideradas promissoras, destacaram-se os estudos envolvendo canabinol (CBN) para manutenção do sono, atualmente respaldados por ensaios clínicos avançados. Também foram apresentados resultados sobre o uso de canabinoides em sintomas associados ao transtorno do espectro autista (TEA), ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), insônia e sintomas comportamentais relacionados às demências. Apesar dos resultados favoráveis observados em parte dos estudos, pesquisadores ressaltaram a necessidade de pesquisas adicionais para consolidar esses achados.

Por outro lado, especialistas defenderam cautela diante de indicações ainda sustentadas predominantemente por estudos pré-clínicos ou evidências limitadas. Esse é o caso de canabinoides menores, como CBG, CBC, CBDV e THCV, frequentemente apontados como promissores em áreas como saúde metabólica, mas que ainda carecem de validação clínica robusta. Durante o congresso, alguns palestrantes destacaram experiências positivas na prática clínica, enquanto outros reforçaram que ainda não há respaldo científico suficiente para recomendações amplas nessas condições.

Consensos entre pesquisadores e profissionais

Apesar das divergências sobre determinadas aplicações terapêuticas, algumas mensagens foram recorrentes ao longo das apresentações. A principal delas foi a adoção da estratégia internacionalmente conhecida como “Start low, go slow” — iniciar o tratamento com doses baixas e promover ajustes graduais conforme resposta clínica e tolerabilidade do paciente.

Outro ponto amplamente discutido foi a importância da composição das formulações. Especialistas ressaltaram que os efeitos terapêuticos não dependem apenas das concentrações de THC e CBD, mas também da interação entre diferentes compostos presentes nos extratos, fenômeno conhecido como efeito entourage ou efeito do fitocomplexo.

Também ganharam destaque as pesquisas relacionadas ao sistema endocanabinoide, com a identificação de novos alvos farmacológicos para fitocanabinoides e o potencial de outros compostos bioativos capazes de modular essa via biológica. Na área de tecnologia farmacêutica, as perspectivas apontam para o desenvolvimento de novas formas farmacêuticas e sistemas de liberação capazes de aumentar a biodisponibilidade e a eficácia terapêutica dos canabinoides.

Novas oportunidades para a Farmácia

As discussões também evidenciaram a ampliação dos espaços de atuação para farmacêuticos em toda a cadeia da Cannabis medicinal. As oportunidades envolvem pesquisa clínica, desenvolvimento tecnológico, produção industrial, manipulação magistral, assistência farmacêutica, farmacovigilância, ensino e formulação de políticas públicas.

A regulamentação da manipulação de canabidiol isolado em farmácias, prevista pela RDC nº 1.015/2026, foi apontada como um dos temas de maior expectativa entre os participantes. Diversos especialistas defenderam que a medida poderá ampliar o acesso dos pacientes aos tratamentos e fortalecer o papel do farmacêutico na individualização terapêutica.

Ao mesmo tempo, estados e municípios seguem avançando em iniciativas para disponibilização desses tratamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando a demanda por profissionais capacitados para atuar na assistência e no acompanhamento dos pacientes.

Um momento decisivo para a Cannabis medicinal no Brasil

Mais do que apresentar resultados de pesquisas, o Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal reforçou que o setor vive um momento de amadurecimento científico e regulatório. Ainda que persistam desafios relacionados à qualidade das evidências em algumas indicações, o avanço das pesquisas, a consolidação do marco regulatório e a expansão das políticas de acesso apontam para uma integração cada vez maior da Cannabis ao cuidado em saúde.

Nesse contexto, cresce também a relevância do papel do farmacêutico, cuja atuação se estende desde o desenvolvimento e a produção dos produtos até o acompanhamento clínico dos pacientes, a farmacovigilância e a construção de políticas públicas voltadas ao uso seguro e racional da Cannabis medicinal no Brasil.

Fonte: CFF