27 de maio de 2026
O Sistema Único de Saúde (SUS) passará a contar com o fornecimento nacional da cladribina oral, um fármaco de alta complexidade voltado para o tratamento da esclerose múltipla. A fabricação em solo brasileiro ficará sob a responsabilidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A expectativa central dessa mudança na cadeia de suprimentos é a redução substancial nos custos de compra, viabilizando a expansão do acesso terapêutico para um contingente maior de indivíduos afetados pela enfermidade.
Comercializado sob a marca Mavenclad, o medicamento passou a integrar a lista oficial do SUS no ano de 2023. A indicação de uso atende especificamente indivíduos diagnosticados com a variante remitente-recorrente (EMRR) em estágio de forte atividade, quadro clínico caracterizado por crises constantes ou agravamento acelerado dos sintomas, mesmo quando o paciente já se encontra sob cuidados com terapias convencionais de primeira linha.
O impacto financeiro atual dessa terapia é expressivo, demandando um investimento público que chega perto de R$ 140 mil por paciente em um ciclo de um quinquênio. Projeções epidemiológicas apontam que o Brasil abriga aproximadamente 3,2 mil cidadãos que enfrentam essa manifestação severa e altamente ativa da patologia.
O panorama geral da esclerose múltipla do tipo remitente-recorrente, contudo, é ainda mais amplo, afetando mais de 30 mil brasileiros. Essa modalidade é a mais recorrente entre a população diagnosticada e se manifesta por meio de surtos agudos intercalados com fases temporárias de recuperação ou estabilidade.
Considerada uma enfermidade crônica, degenerativa e de evolução variável, a esclerose múltipla ataca diretamente as estruturas do sistema nervoso central, comprometendo o cérebro e a medula espinhal. O ritmo de progressão varia de paciente para paciente, gerando sequelas de intensidades distintas que, em situações de maior gravidade, podem evoluir para quadros de perda visual crônica, paralisia de membros e comprometimento das capacidades cognitivas.
A relevância da cladribina no cenário médico global se deve ao fato de ser a primeira opção de tratamento por via oral de curta duração capaz de oferecer uma resposta terapêutica prolongada no controle da EMRR. Esse diferencial científico garantiu ao fármaco uma posição de destaque na Relação de Medicamentos Essenciais editada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Evidências científicas de peso apresentadas no 39º Congresso do Comitê Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) corroboram a eficácia da substância, indicando que pacientes assistidos pelo medicamento apresentaram uma atenuação nas perdas neuronais em um intervalo de dois anos. Adicionalmente, levantamentos paralelos demonstraram que 81% dos voluntários preservaram a capacidade de caminhar de forma independente e mais de 50% dispensaram o uso complementar de outras drogas injetáveis ou orais.
A viabilização do projeto nacional ocorrerá por meio de uma cooperação técnica e industrial que une o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), a multinacional farmacêutica Merck, detentora dos direitos originais do Mavenclad, e a empresa de química fina Nortec.
De acordo com informações compartilhadas por Silvia Santos, atual diretora de Farmanguinhos, o projeto marca um momento histórico para a instituição, já que se trata do primeiro medicamento específico para a esclerose múltipla a entrar na linha de montagem do instituto público.
A gestora ressalta que o acordo tripartite consolida o compromisso institucional com o fortalecimento da saúde pública brasileira e com a democratização do acesso a biotecnologias de ponta feitas no país, pavimentando um caminho sólido para que as diretrizes governamentais se convertam em assistência prática e humanizada na ponta do sistema.
A atuação de Farmanguinhos tem focado historicamente no desenvolvimento e fabricação de terapias de elevado valor agregado, voltadas de forma prioritária para o combate a enfermidades que acometem populações vulneráveis ou que sofrem com a negligência do mercado tradicional.
Na visão de Mario Moreira, presidente da Fiocruz, essa espécie de arranjo produtivo qualifica as competências tecnológicas da instituição junto a parceiros do cenário interno e externo, além de evidenciar a relevância de mercado e a soberania dos laboratórios geridos pelo Estado.
O dirigente pontua ainda que a meta central é estruturar o Complexo Econômico e Industrial da Saúde de forma a assegurar que os programas assistenciais do SUS permaneçam financeiramente viáveis no longo prazo, estimulando simultaneamente a geração de postos de trabalho altamente qualificados, a queda dos preços finais e o rigor no controle de qualidade.
Por fim, cabe destacar que a agenda de cooperação entre a Fundação e a farmacêutica Merck engloba outros dois projetos estratégicos que já estão em andamento: um voltado à produção nacional da betainterferona 1a, outra alternativa terapêutica para a esclerose, e um segundo projeto focado no tratamento da esquistossomose voltado ao público infantil.
Fonte: CFF